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16/07/2006
Aposentado norte-americano trava guerra por patente com a Caterpillar

Jeff Nesmith
em Washington
Cox News Service


Quando Clyde Bryant saiu de uma reunião com executivos da Caterpillar Incorporation, em janeiro de 2000, ele estava otimista quanto à possibilidade de a gigante da fabricação de equipamentos pesados lhe pagar royalties lucrativos pelo motor de baixa emissão de poluentes, de sua invenção.

A companhia foi acusada de burlar a Lei do Ar Limpo, e recebeu uma ordem da justiça para interromper a fabricação de motores diesel que jogam milhões de toneladas de poluentes na atmosfera.

Bryant, um químico aposentado do Centro para Controle e Prevenção de Doenças, se inscreveu para a obtenção de uma patente do seu motor em 23 de maio de 1997. Ele alegou que a máquina não só atenderia aos critérios anti-poluição estabelecidos pela Agência de Proteção Ambiental, mas também produziria uma maior potência.

Porém, após analisar a patente pendente de Bryant, a Caterpillar informou ao inventor da Georgia que não estava interessada.

Desde então, Bryant viu a Caterpillar obter patentes de inovações de motores similares à sua, e arrecadar bilhões de dólares em venda em um período de apenas alguns anos. Os engenheiros da companhia dividiram um prestigioso prêmio Inventor do Ano por uma das patentes.

Bryant reagiu. Ele foi até o escritório da U.S. Patent e Trademark (instituição nacional de concessão de patentes nos Estados Unidos) e declarou que a patente premiada e uma outra não deveriam ter sido concedidas à Caterpillar porque ele próprio havia patenteado essa tecnologia em 2001.

Atualmente Bryant, que tem 79 anos de idade e que está com a saúde fraca, se encontra envolvido em uma guerra internacional de patentes, cada vez mais intensa, com a Caterpillar, uma corporação que arrecada por hora um montante maior do que ele receberia com a sua aposentadoria em 140 anos.

Defensores dos pequenos negócios e inventores individuais afirmam que as dificuldades enfrentadas por Bryant simbolizam uma disputa contenciosa envolvendo ao problema da propriedade intelectual nos Estados Unidos, e que está saindo de controle.

O Congresso e os tribunais estão sendo pressionados para modificar as principais regras do sistema de patentes e os precedentes legais que durante 25 anos conferiram aos detentores de patentes uma vantagem legal quando acusavam as grandes corporações de infringirem os direitos relativos às suas invenções.

Os indivíduos que apóiam tais mudanças dizem que o sistema de patentes está se transformando em um empecilho cada vez maior para o progresso, em vez de se constituir em uma forma de encorajar a inovação, conforme era a intenção dos formuladores da Constituição dos Estados Unidos.

Segundo eles, as companhias que operam em um universo de alta tecnologia precisam se movimentar em um terreno traiçoeiro repleto de patentes mal elaboradas e litígios judiciais a fim de criar empregos norte-americanos e inserir novos produtos e serviços no mercado.

Mark Lemley, um professor de direito da Universidade Stanford, cujos amplas pesquisas sobre esse sistema são citadas com freqüência em artigos acadêmicos, concorda com tais pontos de vista.

Lemley depôs recentemente perante um sub comitê da Câmara presidido pelo deputado Lamar Smith, republicano pelo Texas, e autor de um projeto de lei que implementaria algumas das mudanças pedidas pelas grandes companhias.

"É especialmente importante que o Congresso aja no sentido de impedir abusos do sistema de patentes por aqueles que utilizam esse sistema não para desenvolver e fabricar produtos, mas para arrancar dinheiro daqueles que o fazem", declarou Lemley.

Mas outros, tais como o economista político conservador Pat Choate, acreditam que as mudanças desejadas pelas grandes empresas atingiria o coração do espírito inovador dos Estados Unidos.

"Os Estados Unidos não enfrentam uma crise de litígios relativos a patentes", afirmou Choate em um depoimento perante o sub comitê presidido por Smith.

"A ameaça real de litígios está em um punhado de grandes corporações, cujos modelos empresariais se baseiam no uso agressivo, não aprovado e não compensado dos trabalhos patenteados de outros", acusou Choate, que foi o companheiro de chapa do candidato presidencial independente Ross Perot, em 1992.

Inventores individuais e as suas patentes são "um grande motivo pelo qual os Estados Unidos são os Estados Unidos", disse Bob Shaver, um advogado especializado em patentes, de Boise, no Estado de Idaho, e que tem um blog na Internet sobre invenções.

"Muitas das grandes idéias neste países são oriundas dos pequenos inventores", afirmou Shaver. "Eles empurraram os limites da tecnologia, e o sistema de patentes permitiu a muitos deles desfrutar do sonho americano".

Os exemplos citados no seu blog incluem o do mecânico da Nova Inglaterra, Daniel Halliday, que em 1854 patenteou um moinho de vento dotado de uma cauda que o mantinha apontado na direção do vento, e um advogado do interior chamado Abraham Lincoln, que em 1849 inventou uma técnica para retirar barcos fluviais encalhados em bancos de areia. Lincoln foi o único detentor de patente a se tornar presidente dos Estados Unidos.

Jim Dugan, porta-voz da Caterpillar, se negou a responder à maioria das questões formuladas para a redação desta matéria.

No entanto, ele repeliu qualquer sugestão de que a companhia estivesse fazendo uma guerra de patente contra um inventor idoso.

"As suas perguntas parecem pintar este quadro como uma guerra do tipo Caterpillar versus Clyde, e isto simplesmente não é verdade", afirmou Dugan em uma mensagem por e-mail. "Essa disputa envolve a Caterpillar Incorporation e a Entec Engine Corporation, uma empresa pública e outra privada".

A Caterpillar, que vendeu cerca de 400 mil motores ACERT, registrou receitas de US$ 36 bilhões no ano passado. Bryant afirma que vive do Social Security (previdência social dos Estados Unidos) e de uma pensão governamental de pouco mais de US$ 2.000 mensais, que recebeu durante os 20 anos em que trabalhou no Centro para Controle e Prevenção de Doenças.

"A bem da verdade, não tenho dinheiro algum", respondeu Bryant, quando a reportagem lhe perguntou se ele teria os centenas de milhares de dólares que, segundo alguns especialistas em patentes, serão necessários para cobrir os custos da defesa da sua invenção contra os ataques da Caterpillar em tribunais dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Alemanha, assim como no departamento de patentes. Ele acrescentou mais tarde que a sua resposta se aplicava tanto a Entec, quanto à sua pessoa.

Cinco meses antes de os executivos da Caterpillar conhecerem pela primeira vez o novo motor de Bryant, em janeiro de 2000, a companhia e cinco outras fabricantes de motores a óleo diesel finalmente chegaram a uma acordo quanto a um processo da Agência de Proteção Ambiental que as acusava de instalar "dispositivos de falha" para burlar os testes de emissões. As companhias concordaram em pagar cerca de US$ 1 bilhão em multas, e em investir verbas em novas tecnologias de controle de poluição.

A Agência de Proteção Ambiental afirmou que quando os motores eram submetidos a testes de emissão, os dispositivos de falha impediam que as máquinas atingissem a temperatura de 1.300 graus centígrados, o ponto no qual o nitrogênio e o oxigênio se combinam para formar o "NOx", um dos principais componentes da poluição urbana.

Segundo a agência, esses dispositivos, que reduziram o desempenho e a economia de combustível, foram descartados tão logo os testes terminaram.

Documentos governamentais revelam que a estratégia foi descoberta por engenheiros da Mercedes Benz, que informaram a Agência de Proteção Ambiental. Mais tarde, a Deere and Company, fabricante dos tratores John Deere e de cortadoras de grama avançadas, fez denúncias similares à agência.

A invenção de Bryant envolve a injeção de uma "carga" de ar comprimido resfriado no motor - seja ele movido a óleo diesel, a gasolina ou a gás natural - no instante que antecede a ignição. Segundo o químico aposentado, esse procedimento mantém a temperatura abaixo do nível que permite a formação de NOx, e melhora o desempenho dos motores.

Um funcionário da Caterpillar afirmou que essa abordagem se constitui em "um salto enorme à frente no que se refere à tecnologia de motores", de acordo com um relato sobre a reunião de Peoria, escrito por um dos advogados de Bryant. Dugan, o porta-voz da Caterpillar, se recusou a tecer comentários sobre o relato da reunião.

Registros da Agência de Proteção Ambiental, do departamento de patentes e de vários tribunais descrevem a seguinte sequência de acontecimentos:

a. Poucas semanas antes da reunião, a Caterpillar informou a Entec que não estava interessada "neste momento" em ter relações com uma companhia menor.

b. No decorrer do ano de 2000, a Caterpillar continuou dizendo a funcionários da Agência de Proteção Ambiental que pretendia usar uma tecnologia diferente, denominada "recirculação de gás emitido resfriado" a fim de reduzir as emissões de NOx.

c. Em março de 2001, a companhia anunciou abruptamente que estava desenvolvendo um novo tipo de tecnologia de motores, que seria chamada de "tecnologia avançada para a redução de emissões de combustão", ou ACERT, na sigla em inglês. Assim como o motor Entec, de Bryant, os motores ACERT emitem menos poluentes e recebem uma injeção de ar comprimido e resfriado nos cilindros no instante que antecede a ignição.

d. Em 28 de agosto de 2001, Bryant recebeu uma patente pela sua invenção.

e. Em 2002, os engenheiros da Caterpillar se inscreveram para várias patentes relativas a diversas partes do sistema ACERT, e as patentes foram aprovadas.

f. Em 16 de junho de 2003, os advogados de Bryant escreveram para a Caterpillar, acusando a companhia de infringir a patente do seu cliente com o motor ACERT. A Caterpillar repeliu a acusação.

g. Em 10 de fevereiro de 2004, dois engenheiros da Caterpillar receberam um prêmio "Inventor do Ano" da Associação dos Detentores de Propriedade Intelectual por uma das suas patentes relativas ao ACERT. Fazem parte da diretoria da organização representantes da Coca-Cola, IBM, BellSouth, Caterpillar e outras grandes companhias.

h. Em 17 de setembro de 2004, Louis Asaf, advogado de Atlanta que representa a Entec e Bryant, solicitou que a patente premiada da Caterpillar e uma outra fossem reexaminadas pelo departamento de patentes.

i. Em 22 de setembro de 2005, um examinador do departamento de patentes declarou que as patentes da Caterpillar se referiam a uma tecnologia que Bryant já inventara. Segundo ele, as patentes da Caterpillar não deveriam ter sido concedidas.

j. Em 4 de outubro, o examinador do departamento de patentes Sheldon Richter emitiu uma nota declarando que pretendia aprovar uma "continuação"
da patente de Bryant, refinando e expandindo algumas das alegações relativas à patente original de 2001. As patentes de continuação se referem à mesma data de entrada em vigor das patentes nas quais se baseiam.

k. Em 1º de dezembro, funcionários da Caterpillar e da Entec se reuniram no escritório de Isaf em Atlanta para discutirem os termos para que a Caterpillar licenciasse o motor da Entec. As duas partes se reuniram novamente em 14 de dezembro, em Orlando, na Flórida, mas não chegaram a um acordo.

l. Em 21 de dezembro, a Caterpillar entrou com um processo na justiça contra Bryant e a Entec, em Peoria, no Estado de Illinois, declarando temer um processo por infração, e solicitando uma determinação judicial assegurando que a companhia não infringiu a patente do químico aposentado.

m. Em 22 de janeiro, a Caterpillar mudou de rumo e pediu um reexame da sua própria patente premiada do ACERT, devido àquilo que o departamento de patentes descreveu como "novas e substanciais dúvidas quanto à patenteabilidade".

n. Em 13 de março, a Caterpillar solicitou que o departamento de patentes reexaminasse a patente concedida a Bryant em 2001, bem como a patente de continuação de 2003, que atualizou a patente original e refinou as alegações.

o. Em 30 de março, a Caterpillar entrou com um processo junto à Suprema Corte de Justiça Britânica pedindo a invalidação da patente britânica de Bryant.

p. Em 11 de maio, a Caterpillar entrou com um processo junto ao Tribunal Alemão de Patentes, com o objetivo de invalidar a patente alemã de Bryant.

"A defesa bem-sucedida das suas patentes custará a Bryant e a Entec um milhão de dólares ou mais", disse Ronald J. Riley, presidente da Aliança de Inventores Profissionais. A organização apóia os inventores individuais e se opõe às mudanças no sistema de patentes pelas quais as grandes companhias vêm fazendo lobby.

"Primeiro a Caterpillar tentou roubar a patente de Bryant e, agora, que a estratégia falhou, está tentando transferi-la para o domínio público, de forma que possa ficar com essa tecnologia gratuitamente", acusou Riley.

Bryant preferiu abandonar as duas patentes européias, em vez de tentar defendê-las. A fim de suspender o processo em Peoria, ele e a Entec fizeram um "pacto" no tribunal, prometendo não processar a Caterpillar por infração no que diz respeito às suas duas patentes existentes.

A estratégia de Bryant se baseia bastante na "notificação de concessão"
emitida em outubro passado por Richter, que disse que aprovaria a mais recente patente de continuação de Bryant, tão logo as taxas apropriadas fossem pagas.

No entanto, os registros revelam que em 20 de dezembro Isaf solicitou que a aprovação dessa patente pendente fosse adiada. O advogado argumentou que necessitava de tempo para entregar documentos a ele enviados pelos advogados da Caterpillar com o objetivo de demonstrar que a "prior art" - patentes anteriores e artigos escritos sobre motores diesel - precederam a invenção de Bryant, tornando-a não patenteável.

A lei de patentes exige que os inventores disponibilizem esse tipo de informação para os examinadores, ainda que não acreditem que tais informações sejam relevantes. Subsequentemente, Isaf enviou a Richter vários milhares de páginas de material remetido a ele pela Caterpillar.

O departamento de patentes imediatamente removeu Richter do processo, e nomeou uma nova examinadora, Thai-Ba Trieu.

Os registros demonstram que Trieu aprovou 90 patentes no ano passado, a maioria delas relativa a motores de combustão interna. Este conjunto incluiu as solicitações de patentes que os engenheiros da Caterpillar submeteram quando desenvolviam o motor ACERT, embora nenhuma das duas solicitações informasse mais tarde que foram substituídas pela invenção original de Bryant.

Em maio, após uma reavaliação de cinco meses da solicitação de continuação de Bryant, Trieu o notificou de que pretendia rejeitar a maior parte da proposta, incluindo todas as partes referentes a motores diesel.


Na Internet existem as seguintes fontes de informação referentes a esse assunto:

Histórias de inventores: patentpending.blogs.com
Descrição do motor ACERT, da Caterpillar:
www.cat.com/cda/components/fullArticle?m48920&x7&id142378
Entec Engine Corporation: www.entecengine.com

Tradução: Danilo Fonseca

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